quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um Preço da Sinceridade


Quase todas as pessoas se dizem sinceras.

Dessas, uma boa parte fala tudo que pensa, mas sem pensar.

Exemplos é que não faltam no nosso dia-a-dia. Seja em casa, no café da manhã, alguém olha para você e diz “Que cara é essa? Que cabelo é esse? Que olhos remelentos são esses?”, passando pelo trabalho “Fulana se faz de santinha mas não passa de uma vagabunda”, até a hora de voltar para a cama “Meu dia hoje? Cheio de gente estúpida e que pergunta demais, como em todos os outros!”.

Muitas pessoas acham que serão elas mesmas se passarem o tempo todo disparando pelos cantos os defeitos das pessoas e situações que não as agradou. É bom por um lado, pois a sinceridade não nos deixa acumular rancores e dizeres engasgados na garganta, que com o tempo, vão se tornando o peso de uma caixa d’água.


Mas, tem o outro lado. Se você que considera uma pessoa que fala o que pensa, tenho certeza que já magoou alguém com seus dizeres, muitas vezes sem querer. E com certeza, em algum momento, já fora duramente crucificado por uma opinião sua. Pode até não ter se arrependido de nada do que falara, mas com certeza, você já pagou um preço alto por ter falado.

Se formos ver na História, muitas pessoas já morreram por falar aquilo que pensavam, seja nos tempos da Inquisição, seja nos tempos da ditadura militar.

Vivemos num mundo que a todo momento parece nos provocar e testar a nossa paciência, porém isso não é desculpa para alguns se acharem no direito de vomitar seus raios na cara de quem quer que seja, ainda mais se não tiver certeza da sua razão. Falar a verdade não é errado, errado é a forma ou o momento em que é escolhido para falar.


Fora que, na maioria dos casos, uma pessoa que se acha preparada para falar nunca estará preparada para ouvir. Ainda mais se o assunto for o seu próprio umbigo...


Danilo Moreira

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Imoralidades - Parte Final


Narrador fictício.

- Tudo bem, senhor. – disse o rapaz.

– Vou fingir que acredito no seu papo. Mas fique tranqüilo que nós não queremos nos exibir, afinal, estamos só nós dois aqui apenas curtindo o momento. Não queremos público, assim como também não seríamos públicos de ninguém que fizesse o mesmo.


- Vocês podem ser presos por atentado ao pudor, sabiam? Ou acham que estão em Amsterdan?

- Não não, eu sei. Mas logo aqui, desde quando há seguranças? Reconheço que estamos agindo contra a lei, mas eu não ligo. Se seguirmos tudo que a lei nos manda, não vivemos, pois seríamos os únicos a seguir essas leis. Entende: seguindo as leis, mas nos sentindo mal.

- Espere garoto, não é assim que as coisas funcionam. Se a maioria não segue as leis, vocês têm que segui-las, caso contrário, não terão personalidade, serão verdadeiros maria-vai-com-as-outras.

- Não. – respondeu ele, sorrindo. – Pois se essas leis de pudor não sigo, o faço em prol dos meus desejos sexuais. Não pago impostos para ver o Governo controlando os meus desejos sexuais. Isso é algo muito particular, que ninguém deve se meter, entendeu? Mas tudo bem, eu peço desculpas se lhe provoquei constrangimento. Sou bom rapaz e a minha namorada também. A gente estuda, trabalha, ajuda quem precisa, não mexe nem cobiça nada de ninguém, até as minhas camisinhas eu compro com meu dinheiro ao invés de pegar de graça para o governo, deixando para quem não pode comprá-las. Não usamos drogas, nunca tivemos passagem pela polícia, defendemos a paz, a natureza, enfim, o senhor me vê e percebe que tenho educação e utilizo muito bem a língua portuguesa. Não há razão para ter vergonha de mim, nem dos meus genitais, e nem os da minha namorada. Deixe-nos viver a nossa vida de acordo com o que acreditamos, que o senhor pode ter certeza de que seremos pessoas mais felizes.

- Mas... vocês não acham que estão desrespeitando aquilo que eu acredito, a minha noção de moral?

- De fato, reconheço, estamos, mas não chamamos o senhor aqui. O senhor é que nos viu transando e veio de livre e espontânea vontade nos repreender, nos mostrando aquilo que o senhor acha certo. Nós poderíamos ter pegado as nossas roupas e fugido como animais, ou reagido com agressividade já que não tem mais ninguém aqui. Mas, não, como disse, eu sou do bem, e respeito a sua opinião. Só estou expondo e pedindo que respeite a nossa.

- E não queremos também ser exemplo de moral pra ninguém. – disse a garota. – Mas caso o senhor queira levar alguma lição daqui, pelo menos, pense que nós preferimos ser assim do que ser hipócritas moralistas, a fazer coisas imorais debaixo dos panos e de máscaras, sem paz de espírito, devendo à nossa própria consciência.


Não consegui mais falar. Achei que aquela conversa duraria tempo demais, e eu já estava atrasado para ir trabalhar.


- Bem... se é assim, façam o que achar melhor, mas lembrem-se: toda felicidade tem um preço, e de uma forma ou de outra, a gente tem que pagar. Boa sorte à vocês.


- Muito obrigado! E tenha um excelente dia! – respondeu o garoto, sorridente.


Deixei-os com sorrisos nos rostos, enquanto eu caminhava meio avoado. O casal voltou a transar, ali mesmo, pouco se importando com algumas pessoas que passavam e viam a cena, horrorizadas.
Ainda sim não concordava com aquilo. Eu que já tinha as minhas convicções morais não precisava me chocar com as deles. Mas de fato, uma coisa tenho que reconhecer. Eles foram sinceros comigo. Poderiam ter me agredido, fugido como dois ratos, ou inventado alguma desculpa esfarrapada pra dizer que não era nada daquilo que eu estava vendo, sendo hipócritas. Mas não, simpaticamente, o rapaz me explicou por que estavam ali, desprendido de preconceitos, pudor, e demonstrando ter uma leveza na consciência que me fez refletir se a minha conduta em ter escondido a eles os meus podres da adolescência teria sido certo.

Mas, de qualquer forma, independente do que será minha vida daqui pra frente, valeu pela reflexão.


Danilo Moreira

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Imoralidades - Parte 2


Conto com três partes. Narrador fictício.

- E isso que você e sua namorada estão fazendo aqui também não deixa de ser desrespeito tanto quanto os exemplos que você acabou de me dar?

- Claro que não. – respondeu ele, taxativo. – Todos nós somos seres civilizados, porém, antes disso, somos animais com instintos sendo controlados a todo custo. Instintos que são necessários, com por exemplo, para que o senhor encontre o seu amor, faça sua família, ou simplesmente, para curtir a sua vida.

Resolvi sentar na grama, pois não conseguia esconder a minha pasmaceira (misturado com curiosidade) sobre a teoria que aquele jovem estava praticamente me dizendo. Simpaticamente, ele também sentou, colocando sua namorada no colo. Ela preferiu que ele abrisse as pernas e ela ficasse sentada entre elas, o que me causou um certo incômodo ao olhar.

Enquanto a abraçava, o rapaz continuou:

- Veja bem: a sociedade é hipócrita ao ter vergonha dos seus instintos. Quantas tragédias poderiam ter sido evitadas se as pessoas apenas tivessem mais liberdade em fazer aquilo que seus corpos realmente estavam querendo? Estou falando de vidas infelizes, meu senhor. Gente que enlouquece ou se mata pelos julgamentos da moralidade, enquanto os moralistas provocavam atitudes imorais. Todos nós viemos do sexo. Todos nós vivemos para o sexo! Todos nós só continuaremos nossas gerações através do sexo! Então, por quê a vergonha disso?

- Você está confundindo as coisas. – interferi. – O ser humano não pode só viver de instintos, senão o mundo seria o caos. Tem que haver uma regra moral, algo que mantenha a ordem. Eu até te entendo, mas não concordo. Ser hipócrita é uma coisa, ser escancaradamente imoral é outra. Nós não precisamos de gente de instintos soltos por aí como animais selvagens ávidos pelos genitais de seus machos ou fêmeas, precisamos sim é de pessoas civilizadas, cidadãs, que respeitem a todos e pelo menos respeitem a moral de uma sociedade, mesmo que falsa.

- E isso não é ser hipócrita, meu senhor? Sou jovem, sinto tesão pela minha namorada. Meu corpo pede o corpo dela. Se não obedeço ao meu corpo, se eu me entrego à minha rotina e deixo de satisfazer os meus desejos, ele com certeza vai reclamar, vai afetar o meu humor, a minha saúde, a minha vida social, e até o meu relacionamento. Isso tudo, é claro, com o tempo. Por que não fazer amor onde bem entendo? Na praça, na rua, na escada de algum prédio, no carro, qual o problema se não estou fazendo mal a ninguém? Duvido que o senhor já não teve essa vontade, isso se já não o fez...

- Bem...

Lembrei-me na adolescência, foi até na época da liberação sexual, do movimento hippie, do naturismo, onde peguei uma vizinha e fizemos amor na escada do prédio dela. Houve também uma vez em que eu ficara com uma garota na calçada da minha casa mas para disfarçar, fizemos encostados a um carro estacionado. Não ia contar aquilo ao garoto, pois, apesar de tudo, era diferente. Ambos foram à noite, com extrema preocupação de alguém pegar...

- Eu não. – respondi. – Nunca tive esses desejos libertinos. Sexo pra mim só entre quatro paredes. Não preciso ficar me exibindo como vocês.

A menina me fitou de cima a baixo. Parecia não ter acreditado no que eu havia dito.

continua...


Danilo Moreira


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domingo, 6 de dezembro de 2009

Imoralidades - Parte 1


Conto com três partes. Narrador fictício.

Engraçado como nós, pessoas com nossas ideologias e conflitos, nos deparamos por aí com cada coisa...

Estava eu indo trabalhar de terno e gravata, cabelos grisalhos alinhados com gel para trás, pasta recheada de papéis e um sorriso no rosto, quando olhei para o céu azul daquele começo de tarde. Lindo dia. Se pudesse, pararia por algumas horas, encostaria em algum banco de praça, tiraria meus sapatos de couro italiano, e esticaria os meus pés. Como não podia fazer nada disso, pelo menos, eu procurava ser um homem mais observador das coisas bonitas. Paisagens, monumentos, pássaros, pessoas, crianças... E uma praça. Era uma linda e enorme praça, cheia de grama, flores em muito verde. Ali não era uma região muito movimentada mas se via alguns moradores sentados nos bancos. Eu gostava de passar por ali, pois além da oportunidade de observar e respirar aquele ar puro, eu já poderia cortar um bom caminho até meu trabalho.

E resolvi naquele dia passar por ali, observando aquele belo quadro natural.

Mas, naquele dia, meus olhos levariam um choque ao se virar para perto de um monumento. Dois malucos, não sei se essa era a palavra certa. Eram dois malucos! Um casal de jovens, o rapaz, de cabelo desgrenhado e arrepiado para cima, de camiseta branca, calça jeans azul claro e um All Star vermelho. A menina, com um corte moderno, repicado, cabelos pretos, com uma blusinha estampada pink e uma minissaia jeans rasgada, e um All Star preto de cano alto, de couro. Apoiados no monumento, estavam em extremos amassos. Pareciam estar entre quatro paredes, e a grama seria a cama.

Mas isso não era tudo. Não satisfeito com os amassos, o garoto arrancou sua camiseta, abriu o zíper da calça. A menina também ficou seminua. Sim, iriam fazer amor ali mesmo, na praça, na frente de quem quisesse ver, em pleno começo de tarde. Por sorte não havia crianças ali, e poucas pessoas nesse momento passavam.

Fiquei indignado. O casal já tocava-se freneticamente, entre beijos e lambidas por todos os cantos. Quando começaram o ato, não agüentei, e fui até lá para tentar entender o que se passava na cabeça deles. Já estavam só de tênis quando fui lá repreendê-los.

- Ei, vocês dois, mas o que é isso? Que falta de educação é essa? Aqui agora é motel público?

O casal parou em seguida, e o rapaz ficou de pé, de olhando. Abriu um sorriso natural.

- Opa! Olá, tudo bem com o senhor?

- Tudo nada! – respondi. – Vocês não acham que uma praça não é lugar para ficaram transando, no meio de tudo mundo e ainda nessa hora da tarde?

A menina também ficou de pé. Porém, nem ele, nem ela, se preocuparam em se vestir. Permaneceram nus, só de tênis, ali, na minha frente.

- Bem... – respondeu o jovem. – determinar a finalidade dos lugares é relativo, senhor. O Congresso foi constituído para que os políticos discutam as leis para a nossa nação, e no entanto, já fora palco de verdadeiras vergonhas para o nosso país. A igreja foi construída para que os fiéis católicos fizessem as suas missas em louvor à Deus. E já não vimos falar até de casos de pedofilia com padres? Praticamente em qualquer ambiente de trabalho que o senhor for, encontrará com certeza algum caso de relação amorosa entre empregados, ou patrões. Agora, se amo minha namorada, não mexi e nem quero mexer com crianças, não roubo, não mato, não me envolvo com ninguém do meu trabalho, por que não posso fazer amor com minha namorada numa praça tão tranqüila como essa?

Franzi as sobrancelhas. Aquele rapaz era louco? O que tinha a ver Congresso, a Igreja, com a sua imoralidade na praça? Tudo bem que corrupção no Congresso, pedofilia na Igreja, relações sexuais no trabalho, também são coisas medonhas e vergonhosas, mas isso justificaria aquela cena em público?

Depois de ouvir isso, senti que eu e aquele casal teríamos muito para conversar... Porém, eu com meus cinqüenta anos e minha experiência de vida, jamais imaginei o rumo que tomaria aquela conversa...


continua...

Danilo Moreira

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